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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Súplica!


Súplica - Miguel Torga


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

> Painting by Thiago Castro

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Chove. Há Silêncio Chove.

Chove. Há Silêncio Chove. 
Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Metamorfose em mim



Metamorfose em mim

Seguia eu pela estrada da vida

Carregando nos ombros meu cansaço,
Qual fardo pesado que me fazia curvar...
A dor transfigurava a minha face combalida
Provocando sulcos profundos nos cantos da boca.
Os meus olhos, marejados de pranto,
Perderam o brilho e se fizeram mormaço
Meus cabelos embranquecidos,
Escorriam mal tratados pelo rosto.
Não era a sombra da mulher de outrora...
Perdera todo viço e todo encanto.
Era qual uma árvore seca
Que se quedava à beira de um regato.
Mas a vida que nos tira o que é querido
Fazendo-nos crer que tudo acabou,
Provoca a metamorfose salvadora
Que faz brotar verdes folhas
No velho tronco retorcido,
Fazendo-as tremular de novo ao sabor do vento...
E assim, sou eu agora, rejuvenecida,
Tocada pela pela magia redentora
Que me faz feliz de novo
E de bem com a vida!

Simplesmente Malu

domingo, 3 de junho de 2012

Acordar, viver - Carlos Drummond de Andrade

Acordar, viver - Carlos Drummond de Andrade


"Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea."

sábado, 2 de junho de 2012

A Música - Charles Baudelaire.

S.M.Pompi
A Música - Charles Baudelaire


A música para mim tem seduções de oceano!

Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

QUE FAÇO EU? - São Reis


De todos os olhares com que me cruzo
de todas as vestes que uso
que culpa tenho eu
se nenhum fala a mesma lingua que eu?

De todas as sombras que vejo numa rua
e que nenhuma me contenta
que faço eu se a minha boca procura a tua
e não se sustenta
com puras imitações?
Que faço se os meus olhos só querem os teus
e é neles apenas que se revêem?
Que faço se os outros não crêem
nestas vivas emoções
que me trespassam
e me consomem
que não descansam
nem dormem
e a mim não me deixam dormir?

Que faço se o meu rosto só o teu quer
se a minha boca só sorri com a tua
se o meu corpo de mulher
apenas a ti se entrega
Se a espera compensa
e eu não me importo de esperar...
que faço eu quando perco o teu olhar do meu?
que faço eu sem ti aqui?

"Via São Reis"
NET
                                                            

Mal nos conhecemos

NET
Alexandre O'Neill

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!


Um engano,será?